• Marlene Busko

Jejum intermitente ou dieta de baixas calorias? Diminuição semelhante da HbA1c em adultos com diabet


Pacientes com diabetes tipo 2 bem compensado e excesso de peso tiveram redução semelhante dos níveis de hemoglobina glicosilada (HbA1c) um ano depois de fazer jejum intermitente – dois dias por semana de jejum e cinco dias por semana de alimentação normal – em comparação com uma dieta de baixas calorias contínua.

Os pacientes do grupo do jejum intermitente também exibiram maior tendência à perda ponderal, mas essa diferença não alcançou significado estatístico.

"A restrição intermitente do aporte energético é uma estratégia alimentar alternativa eficaz para a redução dos níveis de HbA1c comparável à restrição contínua do aporte energético para os pacientes com diabetes tipo 2, e pode ser melhor do que a restrição contínua do aporte energético para a redução do peso", escreveram Sharayah Carter, nutricionista da University of South Australia, em Adelaide, e colaboradores, em um artigo publicado on-line em 20 de julho no periódico JAMA Network Open.

Os autores observam, no entanto, que o jejum intermitente precisa ser feito com alguma cautela.

"Para as pessoas que usam sulfonilureias e/ou insulina, a restrição de intermitente do aporte energético exige mudanças na forma de administração dos medicamentos e monitoramento regular, especialmente nos estágios iniciais", escrevem Sharayah e colaboradores.

"Este estudo destaca os benefícios da restrição calórica", disse ao Medscape o Dr. Harpreet S. Bajaj, endocrinologista e pesquisador associado do Mount Sinai Hospital, em Toronto, Ontário (Canadá).

"Alguns pacientes podem preferir fazer jejum intermitente e alguns podem preferir fazer restrição calórica diária", então o tratamento deve ser personalizado, disse o Dr. Bajaj, que também tem um blog no Medscape.

O jejum intermitente é mais palatável?

Alguns pacientes com diabetes podem achar mais fácil perder peso se puderem comer o que costumam fazer a maior parte do tempo e jejuar alguns dias por semana, especularam Sharayah e colaboradores.

Como os autores publicaram anteriormente (Diabetes Res Clin Pract. 2016;122: 06-112), um pequeno estudo-piloto feito durante três meses mostrou que os pacientes com diabetes tipo 2 tiveram controle glicêmico e perda ponderal semelhante com uma dieta hipocalórica contínua ou uma dieta de jejum intermitente.

Para ampliar esta linha de pesquisa, os pesquisadores recrutaram 137 adultos com diabetes tipo 2 e índice de massa corporal (IMC) ≥ 27 kg/m2, sem outras comorbidades. Os pacientes tinham em média 61 anos de idade. Os níveis médios de HbA1c foram de 7,3%, o IMC médio foi de 36 kg/m2, e 56% dos participantes eram mulheres.

Os pesquisadores designaram aleatoriamente os participantes para uma dieta hipocalórica contínua ou de jejum intermitente. Todos os pacientes fizeram uma consulta com nutricionista e receberam um livreto específico sobre a sua dieta com conselhos acerca do tamanho das porções de alimentos e dicas de receitas. Eles também receberam uma balança digital de cozinha.

Os participantes do grupo de restrição calórica contínua foram instruídos a ingerir entre 1.200 e 1.500 kcal/dia (30% de proteínas, 45% de carboidratos e 25% de gorduras), totalizando 10.300 kcal por semana. Os do grupo do jejum intermitente foram instruídos a ingerir 500 a 600 kcal/dia (contendo no mínimo 50 g de proteína) em dois dias (consecutivos ou não) da semana e consumir a alimentação habitual nos outros cinco dias, totalizando 11.500 kcal por semana.

Os participantes agendaram consultas com o nutricionista a cada duas semanas durante três meses e, a seguir, consultas a cada dois a três meses, durante nove meses. Nessas consultas, o nutricionista revisava os registros de controle da glicemia, do peso e da alimentação para avaliar a adesão à dieta. Os medicamentos dos pacientes foram modificados pelo nutricionista, pelo endocrinologista e pelo médico, todos do estudo.

No início do estudo, a maioria dos pacientes estava utilizando metformina (65%), seguida por uma sulfonilureia (22%), insulina (20%) ou inibidor da dipeptidil peptidase 4 (15%). Poucos estavam utilizando algum inibidor do cotransportador de sódio-glicose 2 (6%) ou agonistas do peptídeo do tipo glucagon 1, GLP-1 (4%).

No início do estudo, após a inclusão de 38 pacientes, o protocolo de controle de medicamentos foi modificado primariamente devido à hipoglicemia. O novo protocolo exigia que todos os pacientes parassem de tomar as sulfonilureias e a insulina se os níveis de HbA1c ao início do estudo estivessem abaixo de 7%. Além disso, os pacientes com níveis de HbA1c entre 7% e 10% foram orientados a suspender o uso de sulfonilureias e insulina nos dias de jejum e suspender a insulina de ação prolongada antes do jejum.

Alterações semelhantes dos níveis de HbA1c e do peso nos dois grupos

Os índices de abandono foram semelhantes nos dois grupos, com 69% dos pacientes no grupo de restrição contínua do aporte energético e 73% no grupo do jejum intermitente tendo completado a intervenção de 12 meses. A alteração média dos níveis de HbA1c aos 12 meses foi semelhante nos dois grupos: uma redução de 0,5% e 0,3% nos grupos de restrição calórica contínua e intermitente, respectivamente. A média de modificação ponderal também foi semelhante, com perda de 5,0 kg e 6,8 kg nos grupos de restrição calórica contínua e intermitente, respectivamente. Além disso, não houve diferenças significativas entre os grupos em termos de contagem de passos, glicemia de jejum, níveis lipídicos ou alterações posológicas da medicação habitual.

Houve oito casos de hipoglicemia, distribuídos de modo semelhante em cada grupo. Os autores observam que os pacientes que compareceram a todas as consultas com o nutricionista tiveram os maiores benefícios.

Os pesquisadores reconhecem que esses resultados podem não ser generalizáveis, visto que os pacientes tinham a glicemia bem controlada e fizeram consultas mais frequentes com o nutricionista do que na prática clínica usual. As modificações posológicas dos medicamentos para o diabetes também dificultam a interpretação deste estudo.

No entanto, Sharayah e colaboradores concluem que "a restrição intermitente do aporte energético é aceitável para a maioria dos pacientes com diabetes tipo 2", e a segurança pode ser assegurada por meio de um acompanhamento regular.

"Quando os pacientes chegam e dizem: 'Eu quero fazer essa dieta', nós sempre verificamos quais são os medicamentos que eles tomam e se estiverem tomando medicamentos que possam causar hipoglicemia, nós tentamos diminuir a dose antes deles tentarem determinada dieta", observou o Dr. Bajaj.

Com os medicamentos mais novos, que têm menor probabilidade de causar hipoglicemia, talvez "seja ainda mais seguro ajudar as pessoas a adotarem essas dietas específicas (com restrição do aporte calórico)", acrescentou. Talvez "os agonistas do peptídeo do tipo glucagon 1 (GLP-1) que controlam a fome e/ou o apetite, e talvez uma combinação de coisas, ajudasse a melhorar a sustentabilidade desse tipo de intervenção".

Os autores informaram não possuir conflitos de interesses relevantes ao tema.

JAMA Network Open. Publicado on-line em 20 de julho de 2018. Artigo

Citar este artigo: Jejum intermitente ou dieta de baixas calorias? Diminuição semelhante da HbA1c em adultos com diabetes tipo 2 - Medscape - 3 de agosto de 2018.

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