• Susan Jeffrey

Publicadas novas diretrizes para a prática de atividade física nos Estados Unidos


CHICAGO – O US Department of Health and Human Services (HHS) lançou a segunda edição das diretrizes para atividade física para a população norte-americana, com recomendações de atividade física para todos, a partir dos três anos de idade.

O novo documento contém, pela primeira vez, recomendações para este grupo mais jovem, de três a cinco anos de idade, e faz uma revisão das evidências mais recentes sobre os benefícios da atividade física para diversos grupos populacionais.

As diretrizes foram apresentadas no American Heart Association (AHA) Scientific Sessions 2018, coincidindo com sua publicação on-line em 12 de novembro no periódico JAMA Network.

"Nosso objetivo global é transformar o atual sistema de saúde, centrado nas doenças, em um sistema de promoção da saúde", disse o Dr. Admiral Brett P. Giroir, Secretário Assistente para Saúde, HHS, em uma entrevista coletiva durante o congresso.

"As novas diretrizes representam uma oportunidade única de implementar esta visão diretamente, a fim de alcançar cada indivíduo dos Estados Unidos".

O sedentarismo é responsável por 10% das mortes prematuras nos EUA, disse o Dr. Brett.

"Isso significa que se conseguirmos fazer com que apenas 25% das pessoas sedentárias se tornem ativas e sigam estas recomendações, quase 75.000 mortes seriam evitadas nos EUA".

Os baixos níveis de adesão às atuais diretrizes nos EUA representam um custo médio de 117 bilhões de dólares por ano em saúde, diretamente relacionados ao não seguimento das diretrizes. Mais ainda, representam uma "ameaça à nossa segurança nacional, pois a obesidade desqualifica quase um terço dos jovens norte-americanos de 17 a 24 anos para o serviço militar".

As novas recomendações defendem em primeiro lugar simplesmente "movimentar-se mais e passar menos tempo sentado", disse o Dr. Brett. Uma mudança com o objetivo de facilitar o cumprimento das diretrizes ao remover a afirmação contida na edição anterior de que apenas atividades com o mínimo de 10 minutos contariam para alcançar o objetivo de 150 a 300 minutos, destacou.

"As novas diretrizes, baseadas nas melhores evidências, demonstram que todos podem melhorar e muito a própria saúde, apenas ao se movimentarem mais, a qualquer hora, em qualquer lugar, e de qualquer forma que o torne mais ativos.

As novas evidências enfatizam não apenas os riscos à saúde do sedentarismo, mas demonstram os benefícios anteriormente desconhecidos da atividade física, independentemente de outros comportamentos saudáveis, como a boa alimentação.

As evidências mostram, por exemplo, que a atividade física traz benefícios imediatos, segundo o Dr. Brett. "Um único episódio de atividade física pode reduzir a ansiedade, a pressão arterial, melhorar a qualidade do sono e a sensibilidade à insulina", afirmou o médico.

Além disso, a atividade física pode ajudar a lidar com outros problemas de saúde pré-existentes, como a melhora da dor para quem tem osteoartrite, a redução da progressão de doenças como hipertensão ou diabetes tipo 2, a redução dos sintomas de ansiedade e depressão, e a melhora da cognição em pacientes com doença de Alzheimer, esclerose múltipla, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e doença de Parkinson, disse o Dr. Brett.

O documento anterior reconhecia os benefícios da atividade física na prevenção de doenças crônicas, como as doenças cardiovasculares, diabetes e os tumores de mama e cólon.

"Agora sabemos ainda mais sobre os benefícios em longo prazo da atividade física, como a melhora da saúde do cérebro, a redução do risco de Alzheimer, de lesões por queda em idosos e de oito tipos de câncer", afirmou o médico, acrescentando que "agora, além do câncer de mama e de cólon, incluímos os de bexiga, endométrio, esôfago, rins, estômago e pulmão".

Revisão sistemática

As novas recomendações são baseadas numa revisão sistemática da ciência abrangendo atividade física e saúde. O comitê consultivo das diretrizes de atividade física 2018 respondeu a 38 questões e a 104 subitens, avaliando o grau de evidência "baseado em consistência e na qualidade da pesquisa", segundo os autores. "As evidências consideradas fortes ou moderadas formam a base para estas diretrizes".

As principais recomendações são:

  • Uma nova recomendação para crianças em idade pré-escolar (de três a cinco anos) serem fisicamente ativas durante todo o dia, com o objetivo de três horas de atividade por dia. Esta recomendação é baseada na atividade média observada nesta faixa etária e está de acordo com as diretrizes de atividade física da Austrália, do Canadá e do Reino Unido;

  • As recomendações para crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos permanecem as mesmas da versão anterior das diretrizes; elas devem fazer exercícios físicos de moderados a vigorosos, por 60 minutos ou mais, diariamente;

  • As recomendações para adultos também não foram alteradas, com pelo menos 150 a 300 minutos por semana de atividade de intensidade moderada ou 75 a 150 minutos de atividade física aeróbica forte, ou uma "combinação equivalente de atividade aeróbica de intensidade moderada e forte", segundo os autores. "Recomenda-se também atividade de fortalecimento muscular em dois ou mais dias da semana";

  • Aos idosos, recomenda-se a atividade física composta, incluindo treino de balanço e atividades aeróbicas e de fortalecimento muscular;

  • Mulheres grávidas e no pós-parto devem fazer pelo menos 150 minutos de atividade aeróbica moderada por semana e;

  • Adultos com doenças crônicas ou deficiências, "devem seguir as diretrizes para adultos e fazer atividades aeróbicas e de fortalecimento muscular" dentro de suas capacidades.

"Profissionais de saúde e legisladores devem ajudar na difusão das diretrizes e na promoção dos benefícios à saúde da atividade física e apoiar os esforços para implementar programas, práticas, e políticas que promovam o aumento de atividade física e a melhora da saúde da população dos Estados Unidos", concluíram os autores.

Em um artigo publicado no periódico Viewpoint, que acompanha a publicação das novas diretrizes no JAMA Network, o Dr. Brett e o Dr. Don Wright, do escritório de prevenção de doenças e promoção da saúde, HHS, escreveram sobre as estratégias, baseadas em evidências, contidas nas diretrizes para ajudar a tornar os norte-americanos mais ativos.

Dentre elas, estão a promoção da atividade física dentro do sistema de saúde, ou seja, prescrevendo atividades com base no que conhecemos sobre a quantidade de atividade física adequada para as necessidades de saúde específicas do paciente, e da conexão com os programas e eventos regionais.

Novas tecnologias como os aparelhos vestíveis (wearable) e as mídias sociais podem ser utilizadas, assim como promover a atividade física no local de trabalho ou aumentar a participação de jovens nos esportes, segundo os autores.

"Para aumentar o número de norte-americanos que praticam atividade física regularmente, de acordo com as recomendações das diretrizes de atividade física, precisamos que os indivíduos, assim como a comunidade e os líderes nacionais em todos os setores da sociedade, partam para a ação", concluíram. "Os médicos e outros profissionais da saúde devem participar desta convocação aos norte-americanos, ou mesmo liderar esta iniciativa, para fazer mudanças simples de estilo de vida que irão melhorar a longevidade e a qualidade de vida".

A melhor escolha em saúde pública

No editorial que acompanha a publicação, o Dr. Paul D. Thompson, Hartford Healthcare, Hartford Hospital, Connecticut, e o Dr. Thijs M.H. Eijsvogels, Ph.D., Radboud University Medical Center, em Nijmengen, nos Países Baixos, escreveram sobre as grandes mudanças da nova edição.

"Provavelmente a mensagem mais importante das diretrizes 2018 é que os maiores benefícios ocorrem ao passar de nenhuma atividade para até mesmo uma pequena atividade física.

Ainda mais se esta atividade for de intensidade moderada (por ex.: caminhada forte) ou forte (por ex.: corrida)", segundo os Drs. Paul e Thijs.

Múltiplos estudos mostraram que a redução mais drástica do risco de doença, como a doença coronariana, ocorre nos níveis mais baixos de atividade física.

"Os pacientes precisam entender que mesmo pequenas quantidades de atividade física são benéficas, e que reduções do risco de adoecimento ocorrem apenas por começar a se mexer".

Os médicos e outros profissionais da saúde devem ter um papel de destaque nesta convocação à atividade física.

"O exame clínico de rotina deve incluir uma avaliação da atividade física. De fato, muitos sistemas nacionais de saúde respeitados, como o Kaiser Permanente e o Intermountain Healthcare, agora incluem a atividade física como o quinto sinal vital durante o exame dos pacientes".

"Isto mostra aos pacientes que a atividade física é considerada importante pelo médico e ajuda a identificar pacientes sedentários, o grupo que pode alcançar o maior benefício".

Por fim, os médicos e outros educadores nos serviços de saúde acadêmicos devem incluir o treinamento sobre os benefícios do exercício e da atividade física nos currículos, "para aumentar a segurança dos futuros profissionais na prescrição do exercício como um componente importante de uma vida saudável".

"A atividade física tem sido descrita por Morris, um pioneiro na epidemiologia do exercício e pesquisador principal do estudo London Transport Workers, como a melhor escolha em saúde pública. Os médicos não podem permitir que seus pacientes percam a chance de seguir neste caminho de baixo custo para uma vida saudável", concluíram.

O Dr. Ivor Benjamin, atual presidente da AHA, moderou a entrevista coletiva durante a discussão das diretrizes.

"A American Heart Association reconhece há muito tempo que a atividade física é uma maneira efetiva e comprovada para diminuir o risco de doença cardíaca e para ter uma vida longa e saudável", disse o Dr. Ivor.

"Infelizmente, as pesquisas mostram que poucos – apenas 26% dos homens, 19% das mulheres e 20% dos adolescentes – relatam fazer atividade física suficiente, de acordo com as recomendações", acrescentou.

"Isto é muito preocupante para a American Heart Association, porque pouca atividade física, combinada com o sedentarismo excessivo, podem ter impacto nas doenças mais prevalentes e mais caras, como a doença cardiovascular e o acidente vascular cerebral".

A AHA adotará estas novas recomendações como a "recomendação oficial da AHA" e dará apoio à novas diretrizes, a fim de "amplificar nossos esforços para desenvolver programas e defender políticas para tornar a adoção de atividade física mais fácil para todos, independentemente de onde você more", disse o Dr. Ivor.

Em 12 de novembro de 2018, também foi publicado um artigo de perspectiva no periódico Circulation: Cardiology Quality and Outcomes pelos dois autores das diretrizes, Dra. Katrina Piercy, Ph.D., do escritório de prevenção de doenças e promoção da saúde, HHS, e Dr. Richard P. Troiano, Ph.D., divisão de controle do câncer e ciências da população, National Cancer Institute, Bethesda, em Maryland.

Nele, os autores revisaram as evidências sobre os benefícios cardiovasculares e as recomendações de atividade física das novas diretrizes.

"A conclusão é que os benefícios da atividade física, não apenas para a saúde cardiovascular, mas para a saúde em geral e o bem-estar, não são exagerados", segundo a Dra. Katrina e o Dr. Richard.

"Alguma atividade física é melhor do que nada, e mais atividade física é ainda melhor".

Este estudo foi financiado pelo US Department of Health and Human Services. O Dr. Paul D. Thompson e Thijs M.H. Eijsvogels informaram não ter conflitos de interesses relevantes. A Dra. Katrina Piercy e o Dr. Richard P. Troiano também informaram não ter conflitos de interesses relevantes.

JAMA. Publicado on-line em 12 de novembro de 2018. Diretrizes, Viewpoint, artigo do Dr. Brett, Editorial do Dr. Paul

Circ Cardiovasc Qual Outcomes. Publicado on-line em 12 de novembro de 2018. Perspectiva

Citar este artigo: Publicadas novas diretrizes para a prática de atividade física nos Estados Unidos - Medscape - 20 de novembro de 2018.

#atividadefísica

28 visualizações