• Teresa Santos

Apenas 6% dos tumores de mama são hereditários


Tumores na mama são o tipo de câncer que mais atinge as mulheres em todo o mundo, sendo a principal causa de morte por câncer em mais de 100 países, mostra pesquisa divulgada pelo Global Cancer Observatory (GCO).

Na América do Sul a incidência do câncer de mama é de 56,8%. O consumo de bebidas alcoólicas, o tabagismo e o uso de hormônios aumentam o risco da doença. [1] As maiores taxas de risco de morte por câncer de mama aparecem em países da América Latina e do Caribe e, nestas regiões, o percentual de mortes (56%) é maior entre as mulheres com menos de 65 anos. Nos Estados Unidos e no Canadá a taxa é de 37%. [3]

Contudo, a taxa elevada não está diretamente associada à hereditariedade. Os casos ligados a fatores hereditários e genéticos, como história pessoal ou familiar de câncer de mama, são de apenas 6%.

"Setenta e sete por cento dos casos de câncer de mama são esporádicos. Os casos hereditários seguem um padrão autossômico dominante de transmissão e tendem a ter início mais precoce. A maioria desses casos é atribuída a defeitos nos genes BRCA1 e BRCA2", [2] afirmou o Dr. Nestor Garello, médico e professor da Universidad Nacional de Córdoba, na Argentina, durante uma sessão do 22º Congresso Mundial de Ginecologia e Obstetrícia da FIGO, realizado recentemente no Rio de Janeiro.

Para outro palestrante, o Dr. Gustavo Ferreiro, coordenador do Comitê de Câncer Ginecológico da Federação Latino-americana de Sociedades de Obstetrícia e Ginecologia, está surgindo um novo perfil de câncer na América Latina, devido ao envelhecimento da população, ao aumento da industrialização e às mudanças dos hábitos alimentares e dos estilos de vida.

"Os perfis do câncer em países como Brasil, Uruguai, Argentina e Chile já refletem os de países mais desenvolvidos. O Brasil e a Argentina registraram alta prevalência de câncer de mama, enquanto a Bolívia e o Peru tiveram alta prevalência de câncer cervical. Assim, a América Latina apresenta dupla prevalência de câncer, exibindo taxas elevadas em ambos os casos. O primeiro, associado ao estilo de vida, tradicionalmente ligados às regiões mais prósperas. E o segundo, associado a infecções que historicamente atingem as regiões mais pobres do mundo", comentou Dr. Gustavo.

Estima-se que em 2040 a incidência de câncer de mama no mundo aumente em aproximadamente 46% e, analisando especificamente a América do Sul, o percentual de aumento é de 56%, ou seja, serão 84 mil novos casos de câncer de mama na região. [4] O diagnóstico precoce é essencial para aumentar as taxas de sobrevida, afirmaram os especialistas.

África e países árabes

O câncer de mama é um problema crescente na África. São 94.378 novos casos por ano. A doença atinge em sua maioria as mulheres jovens, entre 35 e 49 anos, e muitas delas são diagnosticadas em estágio avançado da doença, o que acarreta altos índices de mortalidade – estima-se que sejam mais de 63 mil mortes por ano. [3]

Para o Dr. Sibone Mocumbi, pesquisador da Uppsala University, na Suécia, a precariedade do atendimento tem impacto direto na sobrevida das pacientes.

"As mulheres africanas têm acesso limitado ao atendimento de qualidade. Há escassez de profissionais de saúde com formação em diagnóstico e tratamento do câncer, acesso inadequado à radioterapia – a cobertura atual é de 28% –, e pouca disponibilidade de tratamentos sistêmicos básicos e modernos que se traduzem em menor taxa de sobrevida", [5] afirmou o pesquisador.

O Dr. Sibone destacou que, apesar da precariedade, é possível identificar alguns avanços no tratamento do câncer de mama na África, como maior desenvolvimento e adaptação às diretrizes terapêuticas, melhores serviços de patologia, como a imuno-histoquímica, expansão e modernização de equipamentos de radioterapia em todo o continente, além de mais oportunidades de pesquisa.

O Dr. Wadih Ghaname, professor na Holy Spirit University of Kaslik, no Líbano e ex-presidente da Sociedade Libanesa de Ginecologia e Obstetrícia, apresentou os desafios dos países árabes para enfrentar a doença, que atinge de 14% a 42% de todas as mulheres árabes com câncer. [6] Segundo o Dr. Wadih, o câncer continua sendo um tabu na região.

"A recente explosão de conhecimento e informação por meio da mídia e da internet ajudou a mudar algumas atitudes, mas a maioria das pessoas ainda se refere à doença como 'aquela outra doença' e continua com medo de mencioná-la pelo nome", revelou durante apresentação.

De acordo com o especialista, assim como as africanas, as mulheres árabes também recebem diagnósticos tardios – em 50% a 80% dos casos. [7] A falta de conhecimento sobre os fatores de risco, o medo do câncer, a timidez e o medo das implicações sociais, crenças e atitudes fatalistas, e a ausência de serviços de saúde adequados são alguns dos fatores que compõem esse cenário.

Dr. Wadih afirmou que a mastectomia total ainda é realizada em mais de 80% das mulheres com câncer de mama. "Na Síria, por exemplo, o percentual desse procedimento chega a 88%. [6] Os sírios contam somente com um centro de tratamento de radioterapia para todo o país. A disponibilidade dos serviços de radioterapia no mundo árabe está muito abaixo dos padrões internacionais e varia significativamente entre os diferentes países", [8] disse.

O professor concluiu dizendo que, "são recomendados mais esforços para a prevenção primária nos países árabes. Além disso, a prevenção secundária deve incluir campanhas de conscientização e detecção precoce. Aumentar a conscientização, promovendo a atenção para os sintomas, o autoexame das mamas e os exames clínicos são recomendados para reduzir o câncer de mama de apresentação tardia".

Referências:

  1. GLOBOCAN 2018. CA CANCER J CLIN 2018; 0:1–31. Disponível em: https://doi.org/10.3322/caac.21492

  2. Am J Obstet Gynecol. 2015 Aug;213(2):161-5. doi: 10.1016/j.ajog.2015.03.003. Epub 2015 Mar 3. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25747548

  3. GLOBOCAN 2012. (NÃO ESTÁ MAIS DISPONÍVEL ONLINE, JÁ QUE HÁ UMA PESQUISA ATUALIZADA)

  4. GLOBOCAN – Cancer Tomorrow. Disponível em: https://gco.iarc.fr/tomorrow/home

  5. Vanderpuye V. Infect Agent Cancer. 2017 Feb 14;12:13. doi: 10.1186/s13027-017-0124-y. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28228841

  6. El Saghir N. et al. Trends in epidemiology and management of breast cancer in developing Arab countries: a literature and registry analysis. Int J Surg. 2007 Aug;5(4):225-33. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17660128

  7. Gulf Center for Cancer Registry (GCCR), 2004.

  8. International Atomic Energy Agency. Disponível em: http://www.iaea.org/

Citar este artigo: Apenas 6% dos tumores de mama são hereditários - Medscape - 21 de novembro de 2018.

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