• Elioenai Paes

Estudo em camundongos obesos sugere que exercício físico reduz esteatose hepática não alcoólica mesm


Um estudo pré-clínico brasileiro, feito na Universidade Federal de Campinas (UNICAMP) e publicado no periódico Journal of Endocrinology,[1] mostrou que o treinamento de força de curta duração reduziu o acúmulo de gordura e a inflamação no fígado de camundongos obesos. A pesquisa também demonstrou aumento da sensibilidade hepática à insulina e maior controle da glicemia hepática com esse tipo de exercício. O principal ponto do estudo é que esses resultados foram observados mesmo sem perda ponderal ou diminuição da gordura corporal.

Como a esteatose hepática não alcoólica (EHNA) tem relação direta com obesidade, resistência insulínica e diabetes tipo 2, e as pesquisas anteriores sobre o tema ainda não haviam demonstrado os efeitos moleculares do treinamento de força de curta duração no acúmulo de gordura hepática em camundongos obesos, o estudo atual teve como objetivo investigar os efeitos do exercício nos mecanismos de oxidação e síntese lipídica no fígado dos animais obesos. O protocolo de curta duração foi escolhido justamente para evitar que os camundongos perdessem tecido adiposo durante o experimento.

Para analisar com acurácia os efeitos do exercício físico, os pesquisadores separaram os camundongos em três grupos: magros (controle), obesos sedentários e obesos em treinamento de força. Os dois grupos de camundongos obesos foram alimentados com uma dieta alta em gordura durante 14 semanas e distribuídos de acordo com o peso e glicemia de jejum nos dois grupos – obesos sedentários e obesos em treinamento de força.

O grupo designado para o treinamento de força fez exercícios uma vez por dia por 15 vezes, com sessões diárias por cinco dias, seguidos de dois dias de descanso. Depois de 13 sessões, os animais foram submetidos ao teste de tolerância ao piruvato para estimar a produção hepática de glicose e, 24 horas depois, fizeram mais duas sessões de exercícios, totalizando os 15 treinos.

Depois dos 15 treinos, os camundongos em treinamento de força não apresentaram diferença de IMC e adiposidade estatisticamente significativas, quando comparados ao grupo de camundongos obesos sedentários. No entanto, a hiperglicemia que havia sido induzida por causa da obesidade foi revertida pelo treinamento de força, e os camundongos apresentaram níveis semelhantes ao do grupo de controle (camundongos magros).

Foi observado no estudo que a obesidade nos camundongos levou ao aumento da expressão dos genes lipogênicos Fasn e Scd1, ao mesmo tempo em que a atuação dos genes oxidativos Cpt1a e Ppara foi reduzida. Além disso, foi demonstrado também que houve redução da fosforilação do acetil-CoA carboxilase (ACC) e aumento do total de ACC e ácido graxo sintase (FAS, sigla do inglês, fatty acid synthase). No entanto, notou-se que, no grupo que fez o treinamento de força de curta duração, houve redução da expressão de Fasn e de Scd1, e aumento dos níveis de mRNA de Cpt1a e Ppara. Enquanto o grupo obeso sedentário apresentava aumento dos níveis das citocinas pró-inflamatórias TNF-alfa e IL-1 beta, o grupo que fez exercícios conseguiu reverter essas situações.

Próximos passos

Para o endocrinologista membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Dr. Renato Zilli, pelo fato de a pesquisa ainda estar em fase inicial, serão necessários estudos posteriores, que possam demonstrar o efeito dos exercícios de força de curta duração em humanos.

"Sabemos que a esteatose hepática não alcoólica está ligada ao estilo de vida moderno, de pouca atividade física. Então, pode ser que no futuro o treinamento de força possa se mostrar uma das terapias", analisou. "A principal forma de tratar, ainda, é perdendo peso".

O endocrinologista membro SBEM, Dr. Amélio Godoy de Matos, que não esteve envolvido na pesquisa, explicou que, por ser um estudo curto, de prova de conceito, ainda não traz todas as respostas necessárias.

"Se os pesquisadores testassem o efeito do exercício físico de força por um tempo mais longo, haveria, sim, a diminuição da gordura e, consequentemente, os resultados seriam associados mais à diminuição da gordura corporal do que ao exercício", avaliou.

Com a sugestão de que, independentemente da perda de gordura corporal, o exercício de força já melhora os mecanismos metabólicos e moleculares da EHNA, o Dr. Amélio pondera que já é possível orientar os pacientes a também praticarem exercícios de força, mas disse que a perda ponderal ainda deve ser considerada como principal medida para melhorar o problema.

"Isso não significa que se vá prescindir da perda ponderal. A dieta sempre será superior ao exercício, pois a perda ponderal vai trazer mais benefícios para o obeso do que o exercício em si", disse o médico.

"Estudos anteriores em humanos já demonstraram que o obeso que faz atividade física tem mais saúde metabólica do que o sedentário, mas isso não significa, claro, que um obeso é saudável, pois há trabalhos que mostram que obesos saudáveis vão evoluindo para as alterações metabólicas da obesidade. Mas, sim, o exercício compensa uma parte dos problemas advindos da obesidade", comentou Dr. Matos.

Referências

Pereira RM, Rodrigues KCDC, Anaruma CP et al. Short-term strength training reduces gluconeogenesis and NAFLD in obese mice. Journal of Endocrinology. 2019 Apr 1;241(1):59-70. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30878016

Citar este artigo: Estudo em camundongos obesos sugere que exercício físico reduz esteatose hepática não alcoólica mesmo sem perda ponderal - Medscape - 1 de abril de 2019.

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