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Estudo associa uso de probióticos à proteção contra declínio cognitivo após quimioterapia

Medscape - Nancy A. Melville

Pacientes com câncer de mama tratados com quimioterapia + suplementação probiótica tiveram significativamente menos sintomas cognitivos associados à quimioterapia do que os pacientes no grupo de controle, que recebeu placebo, diz estudo.


“Nossos achados oferecem uma estratégia de prevenção simples, barata e eficaz contra os efeitos colaterais da quimioterapia, inclusive o comprometimento cognitivo”, disse ao Medscape o autor sênior do estudo, Dr. Jianbin Tong, Ph.D., médico do Departamento de Anestesiologia do Terceiro Hospital de Xiangya, Universidade Central do Sul, na China.

Este “é o primeiro estudo mostrando que a suplementação probiótica durante o tratamento pode prevenir o comprometimento cerebral associado à quimioterapia”, observou.

O estudo duplo-cego e randomizado foi publicado em dezembro no periódico European Journal of Cancer.

O trabalho, realizado na China, incluiu 159 pacientes com câncer de mama em estágio I a III que necessitaram de quimioterapia adjuvante entre 2018 e 2019. Os participantes foram randomizados para receber três cápsulas duas vezes por dia contendo probióticos (n = 80) ou placebo (n = 79) durante a quimioterapia.

As cápsulas probióticas continham Bifidobacterium longum, Lactobacillus acidophilus e Enterococcus faecalis (210 mg de cada).

A redução dos sintomas observada com a suplementação “excedeu as nossas expectativas”, disse o Dr. Jianbin ao Medscape. Ele especulou que os efeitos possam ser mais duradouros, aventando a possibilidade de a prevenção do comprometimento cognitivo inicial “mudar o curso neurodegenerativo dos pacientes após a quimioterapia”.

“Os pacientes não precisam tomar probióticos continuamente, mas seria melhor fazê-lo de forma intermitente”, disse.

Solicitada a comentar, a Dra. Melanie Sekeres, Ph.D., chefe de pesquisa e professora assistente na Faculdade de Psicologia, University of Ottawa, no Canadá, disse que melhoras como as observadas na memória de evocação são de especial interesse.

“Isso é particularmente notável, porque uma das regiões do cérebro particularmente envolvida no processamento da memória de longo prazo, o hipocampo, é altamente sensível à neurotoxicidade causada pela quimioterapia”, disse ela ao Medscape.

“O achado de que a associação de probiótico e quimioterapia foi suficiente para conferir uma proteção parcial contra distúrbios de memória nestes pacientes sugere que o tratamento probiótico possa conferir alguma neuroproteção”, explicou.

Algo fundamental é saber se resultados semelhantes seriam observados com outros esquemas quimioterápicos, acrescentou a Dra. Melanie. “Para entender melhor a eficácia desses probióticos na prevenção do comprometimento cognitivo associado à quimioterapia, eles precisam ser avaliados com outras classes de quimioterapias antes de qualquer conclusão mais ampla poder ser feita”.

Medindo o efeito do comprometimento cognitivo

O comprometimento cognitivo costuma ser relatado após o tratamento, e cerca de 35% dos pacientes referem sintomas prolongados.

Os principais sintomas são déficit de memória, atenção, habilidades executivas e velocidade de processamento.

No estudo em pauta, Dr. Jianbin e colaboradores avaliaram a saúde cognitiva dos pacientes, por meio de uma série de testes neuropsicológicos validados, um dia antes do início da quimioterapia e 21 dias após o último ciclo de tratamento. Os pesquisadores utilizaram o Hopkins Verbal Learning Test–Revised para avaliar a memória verbal, o Brief Visuospatial Memory Test–Revised para avaliar a memória visual, além de vários outros testes.

A equipe relatou que, após o ajuste para fatores de confusão, a incidência total de comprometimento cognitivo associado à quimioterapia 21 dias após o último ciclo de tratamento foi significativamente inferior entre os pacientes que tomaram probiótico versus placebo (35% vs. 81%; risco relativo [RR] = 0,43).

As taxas de alteração cognitiva leve também foram inferiores no grupo probiótico (29% vs. 52%; RR = 0,55), assim como as taxas de alteração cognitiva moderada (6% vs. 29%; RR = 0,22).

Foram observadas melhoras na maioria dos demais domínios neuropsicológicos avaliados no grupo dos probióticos, inclusive na memória verbal instantânea e na memória visual tardia (P = 0,003 para ambos) e na interferência visuoespacial e na fluência verbal (P < 0,001 para ambos).

As melhoras mais notáveis observadas no grupo do probiótico ocorreram independentemente do uso de outros medicamentos ou do tipo de esquema quimioterápico recebido, que variou entre epirrubicina, docetaxel ou docetaxel + ciclofosfamida.

O comprometimento cognitivo associado à quimioterapia foi mais comum entre pacientes mais velhos e menor grau de instrução ou índice de massa corporal mais elevado. No entanto, as melhoras no grupo probiótico foram observadas independentemente desses fatores, comentaram os autores.

Além da redução do comprometimento cognitivo identificada, o tratamento com probióticos também foi associado à diminuição da glicemia (média, 4,96 vs. 5,30; P = 0,02) e a níveis menores de lipoproteína de baixa densidade (2,61 vs. 2,89; P = 0,03) vs. placebo ­– apesar de não terem sido observadas diferenças significativas entre os grupos antes da quimioterapia.

Não foram registradas queixas de vômitos ou constipação graves (≥ 3 graus) em nenhum dos grupos; no entanto, a incidência desses dois eventos foi menor no grupo do probiótico, pontuaram os autores.

Como funciona?

Acredita-se que os potenciais benefícios dos probióticos sejam resultado da estabilização das perturbações colônicas e bacterianas causadas pela quimioterapia, potencialmente compensando a neuroinflamação associada ao tratamento do câncer, especularam os autores.

Uma subanálise de 78 amostras fecais de 20 pacientes no estudo não mostrou diferenças na diversidade alfa ou beta nem antes nem depois da quimioterapia; no entanto, após o tratamento houve uma redução significativa na abundância de Streptococcus e Tyzzerella (P = 0,023 e P = 0,033, respectivamente) no grupo dos probióticos.

Outras análises mostraram que a suplementação probiótica modulou os níveis de nove metabólitos plasmáticos em pacientes com câncer de mama e os resultados sugerem que metabólitos (incluindo p-mentha-1,8-dieno-7-ol) “possam ser modulados por probióticos na prevenção do comprometimento cognitivo associado à quimioterapia”, observaram os autores.

Benefícios relatados para além do câncer de mama

Um ensaio clínico realizado pelo Dr. Jianbin e seus colaboradores após o estudo em pauta, sobre o comprometimento cognitivo associado à quimioterapia, revelou benefícios protetores semelhantes com o uso de probióticos na prevenção de mucosite oral e da síndrome mão-pé associadas à quimioterapia.

E em um estudo publicado em 2021 a equipe de pesquisa encontrou evidências de que a suplementação probiótica protegeria pacientes idosos contra o declínio cognitivo após uma cirurgia.

O estudo recebeu apoio da Fundação Nacional de Ciências Naturais da China, subprojeto dos Programas Nacionais de Pesquisa e Desenvolvimento Fundamentais, plataforma de inovação e plano de talentos de ciência e tecnologia da província de Hunan e Fundação de Ciências Naturais da província de Hunan.

Eur J Cancer. Publicado on-line em 21 de dezembro de 2021. Abstract


Citar este artigo: Estudo associa uso de probióticos à proteção contra declínio cognitivo após quimioterapia - Medscape - 9 de fevereiro de 2022.

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